Os depoimentos são emocionantes até mesmo para quem está acostumado a ouvir muitas histórias, como a juíza Eurinete Tribuzyy, da 11ª Vara Criminal do fórum Henock Reis. A juíza é responsável pelos casos de mutilações a várias mulheres que foram vítimas de erros do médico Carlos Jorge Cury Mansilla, 58 anos.
Oito vítimas (ex-pacientes do médico) deverão depor esta semana. Cinco delas compareceram neste primeiro dia de audiências de instrução. As outras três devem ser ouvidas nesta quarta-feira (30). A expectativa da juíza é também colher os depoimentos das testemunhas de acusação e de defesa, bem como do acusado, até sexta-feira (2).
De acordo com a promotora de Justiça do Ministério Público Estadual (MPE), Lucíola Honório de Valois Coelho, os processos referentes ao caso foram distribuídos, por sorteio, em várias varas criminais do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM); No entanto, como se tratava do mesmo denunciado e com as mesmas características, esses processos estão sendo juntados em blocos, na 11ª Vara Criminal de Manaus.
“Como tínhamos o mesmo delito com mesmo acusado, reunimos em um só processo, nove vítimas. O acusado compareceu, mas como as vítimas pediram que ele não ficasse no local, ele foi liberado e vai ser ouvido após a oitiva das vítimas e testemunhas”, disse a promotora.
A promotora informou, ainda, que o Ministério Público trabalha para enquadrar o acusado nos crimes de estelionato e lesão corporal grave. Segundo ela, como os processos foram juntados em um só bloco, em caso de condenação, a pena por uma vítima será a mesma para os demais processos.
“Ele vai ser julgado por cada um dos crimes. Uma vez comprovado que ele os cometeu, será aplicada a continuidade delitiva, ou seja, a pena por um crime será a mesma pelos demais”, disse a promotora.
A juíza Eurinete Tribuzy disse que a expectativa é de que as oito vítimas possam ser ouvidas todas ainda esta semana, apesar de o tempo de depoimento que cada estar próximo de duas horas. “É um processo muito complexo e delicado, com muitas vítimas e muitos detalhes. Mas vamos trabalhar para ouvir todos esta semana para podermos entrar nos demais processos”, explicou a juíza.
Emília Alencar, artista plástica foi uma das vítimas do médico. A paciente entrou na sala de cirurgia com duas hérnias umbilicais e saiu com centenas de problemas que carrega as marcas até hoje. Emília afirma que feito novos procedimentos cirúrgicos e tomado vários medicamentos para conter uma bactéria que se espalhou pelo seu corpo. “Não tenho mais o que gastar”, afirmou ela, mostrando uma mala com uma grande quantidade de embalagens de medicamentos que já tomou. “Ainda estou com muitos problemas. Estou sofrendo muito”, disse a denunciante.
Os processos contra o cirurgião apuraram casos diferentes, sendo os mais comuns os de cirurgias plásticas como lipoescultura, mamoplastia, abdominoplastia e cirurgia no nariz. Segundo o Ministério Público, até agora são 16 vítimas lesionadas e mais uma vítima fatal. Há ainda processos em outras varas criminais que devem ser redistribuídos para a 11ª Vara Criminal, pois os inquéritos ainda estão nas delegacias ou com o Ministério Público. No caso da vítima fatal, dependendo do teor do processo, o mesmo poderá ser enviado a uma Vara do Tribunal do Júri.
Os casos começaram a ser denunciados em 2010 e depois de uma mobilização pelas redes sociais, ganhou proporção até chegar a justiça. De acordo às investigações, mais de 20 mulheres denunciaram e ainda devem ser ouvidas.
Até sexta feira serão ouvidas noves vítimas dos casos considerados os principais e mais graves. Os demais já em andamento estão distribuídos em outras varas do fórum. Todos semelhantes, de vidas destruídas por erro que visivelmente pode se notar, uma das vítimas entrou pra operar o nariz e saiu com o abdômen transformado. O desejo de todas elas é o mesmo, de justiça.
