
Em coletiva de imprensa realizada nessa terça-feira (10), a Arquidiocese de Manaus apresentou a Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano traz como tema, proposto pela Igreja no Brasil, “Fraternidade e Moradia”, e como lema “Ele veio morar entre nós”, extraído do Evangelho de São João. A coletiva ocorreu na Cúria Metropolitana de Manaus e contou com a presença do Cardeal Arcebispo de Manaus, Dom Leonardo Steiner, dos coordenadores de pastoral da Arquidiocese, Pe. Geraldo Bendaham e Ir. Rosanna Marchetti, além líder do Projeto Cachoeira Grande, Sr. Carlos Lacerda.


A partir do aspecto da morada, muito se tem a refletir, sobretudo nas áreas mais necessitadas de nossa região e do mundo, sobre esse tema incisivo, que provoca uma reflexão profunda acerca de como ser Igreja, morada e templo para a sociedade.
Ao introduzir a temática, Dom Leonardo Steiner ressaltou a importância da Campanha da Fraternidade no tempo quaresmal: “Todos os anos fazemos a abertura da Campanha da Fraternidade para que as pessoas se deem conta da realidade abordada no tempo da Quaresma. Tempo de conversão, de mudança de vida, e, por isso, a Campanha é inserida neste tempo litúrgico, quando olhamos para Jesus crucificado e medimos a nossa vida com a vida de Jesus e, assim, percebemos as mudanças necessárias”.

Citando São João Paulo II, o arcebispo exemplificou a necessidade de uma “conversão social” e, também, recordou o Papa Francisco (in memoriam), que insistia na “conversão ecológica”.
“Se formos perceber, devagarinho vamos abrindo o ‘leque’ da necessidade de transformações, não apenas na vida pessoal, mas também na vida social, na vida de nossas relações e, por que não dizer, na conversão necessária dentro da nossa casa comum”, pontuou Dom Leonardo.
E aprofundando a perspectiva do tema e do lema “Fraternidade e Moradia” e “Ele veio morar entre nós”, Dom Leonardo explicou a necessidade de a Igreja abordar essa questão em tempos de grandes desafios sociais:
“Houve, nos últimos anos, um grande esforço por parte dos governos para termos moradia para todos, mas nem todos têm moradia. Além disso, há a necessidade de moradia digna, de um espaço onde aconteçam educação, cultura e esporte. A moradia envolve muitos elementos. No tempo da Campanha queremos rezar, meditar e, por que não, discutir a questão da moradia, sempre pensando que o mais importante é o habitar: as pessoas se sentirem em casa com dignidade, porque todos são filhos de Deus”, destacou.

O Evangelho de João reforça que somos todos irmãos e irmãs, e esse é o intuito da Campanha: ajudar aqueles que estão em situação de necessidade ao nosso redor. A coletiva prosseguiu com as contribuições dos demais participantes da mesa, que ajudaram a compreender ainda mais os objetivos da Campanha da Fraternidade.
A Ir. Rosanna Marchetti, coordenadora de pastoral da Arquidiocese, destacou a diversidade de reflexões que a Campanha propõe:
“Este tema abrange muitas outras temáticas além da questão ecológica; é também uma questão ética, de dignidade na vivência de uma vida relacional dentro de casas dignas. Manaus está entre as vinte cidades do Brasil com maior realidade de favelização; ocupa o quarto lugar nesse ranking. Essa realidade nos ajuda a refletir sobre a importância de ações concretas de proximidade com as famílias que vivem em situação precária.”
Relacionando Jesus com a temática da Campanha, Ir. Rosanna recordou que Cristo também viveu a experiência da ausência de moradia:
“Jesus foi alguém que veio ao mundo e não teve moradia fixa; fez essa experiência. A casa é um espaço de relações, um espaço de vivência da fé. Lembramos, nos Atos dos Apóstolos, que as primeiras comunidades se reuniam nas casas.”


Carlos Lacerda, morador da Alameda Pico das Águas e liderança do Projeto Cachoeira Grande, relatou as dificuldades enfrentadas na luta por moradia digna: “Estamos na luta no bairro São Geraldo desde 2012. O que cabia na comunidade eram, mais ou menos, 700 famílias, que ainda aguardam a resposta dos poderes competentes há 13 anos.”
Ele ressaltou a demora do poder público em garantir moradia às famílias necessitadas: “Muitas pessoas faleceram e não viram suas moradias. É triste você não poder colocar a planta dos pés em uma moradia digna que é sua, porque o governo retirou e não devolveu.”

O Pe. Geraldo Bendaham, coordenador de pastoral da Arquidiocese de Manaus, destacou a realidade histórica da cidade relacionada à moradia:
“Uma imagem que talvez muitos não se recordem na questão da moradia, em Manaus, é a ‘cidade flutuante’. As pessoas viviam ao redor do Rio Negro morando sobre as águas. Após os anos 1950 e 60, essa realidade foi desativada, e as pessoas passaram a ocupar os bairros da cidade, pois morar sobre o rio era uma questão sanitária grave.”
O sacerdote reforçou a ligação entre moradia e família: “O lar, a casa, é aquele espaço onde as pessoas podem descansar e repousar. É algo muito importante e não pode haver descaso por questões políticas.”
Por fim, destacou a sensibilidade da Igreja ao celebrar a Campanha da Fraternidade: “Celebrar a Campanha da Fraternidade na Quarta-feira de Cinzas é nos comprometer com essa temática importantíssima para a vida de muitas famílias”.
O padre finalizou sua fala com um convite para a abertura oficial da Campanha da Fraternidade 2026, que acontecerá no dia 18 de fevereiro, no bairro São Geraldo.
A coletiva de imprensa foi encerrada com a oração da Campanha da Fraternidade, rezada por todos os presentes, que suplica a Deus a graça da conversão para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.






