RÁDIO TIRADENTES | 89,7 MHz | AO VIVO

Entenda o que é blackwashing e como o “antirracismo de aparência” atua

Brasília (DF), 14/07/2026 - O que é blackwashing
Imagem Joédson Alves/Agência Brasil
© Imagem Joédson Alves/Agência Brasil
Pesquisadores listam estratégias de comunicação utilizadas 

O chamado blackwashing descreve estratégias de comunicação pelas quais empresas projetam uma imagem de compromisso com a igualdade racial sem promover mudanças estruturais em suas práticas. Para explicar o conceito e mapear as táticas por trás dessa prática, foi lançado o estudo “As corporações são, de fato, engajadas na pauta racial?”, elaborado por pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde.

levantamento de 133 páginas traz uma lista de práticas de comunicação e marketing utilizadas por empresas para construir uma imagem pública de compromisso com a pauta antirracista sem promover mudanças estruturais em suas práticas.

O que é blackwashing

Em tradução livre, blackwashing pode ser entendido como uma espécie de “lavagem” ou maquiagem da imagem de uma empresa em relação à pauta racial para obter lucro. O termo é análogo a greenwashing, usado para descrever ações que simulam compromisso ambiental, e pinkwashing, relacionado ao uso da pauta LGBTQIA+ para fins de imagem.

Os autores do estudo definem o conceito blackwashing como “tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro”.

Essa prática recebe a crítica de se tratar de uma demonstração de engajamento de pautas de justiça racial, mas que “não enfrentam a questão das iniquidades raciais” de maneira estrutural.

Os pesquisadores mapearam oito variedades de blackwashing:

  1. Divulgação seletiva – comunicação corporativa enfatiza apenas as áreas nas quais estão buscando uma melhora na performance sobre as questões raciais e não divulga áreas nas quais eles não melhoraram ou até pioraram. Essa estratégia pode ser vista como um “antirracismo de aparência.
  2. Políticas e reivindicações vazias – implementação de políticas vendidas como uma transformação radical nas relações raciais, quando na verdade há pouco poder para a implementação ou as políticas têm baixo potencial de mudança no status quo.
  3. Certificações duvidosas – utilização de certificações conferidas por terceiros para promover um produto e/ou uma empresa como benéfico para pessoas negras.
  4. Apoio e parceria com ONGs cooptadas – associação com organizações que atuam na pauta racial para conferir credibilidade aos esforços corporativos na busca pela equidade racial.
  5. Programas voluntários sem eficiência – criação e comprometimento com programas e códigos voluntários para promover a equidade racial nos locais de trabalho, com mecanismos de aplicação fracos.
  6. Narrativas e discursos enganosos – campanhas de marketing com a finalidade de posicionar a corporação como referência antirracista, independentemente do seu histórico nesta área.
  7. Marcas enganosas – uso de logos, influenciadores e vozes estratégicas para implicar que a marca é antirracista.
  8. Acessar e influenciar a formulação de políticas – acesso e influência em espaços de tomada de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra.

Sem representatividade no topo

Ao apontar que algumas empresas têm representatividade racial como fachada, o estudo traz dados de um levantamento do Instituto Ethos com as 1,1 mil maiores empresas do país.

A publicação destaca baixa representatividade de pessoas negras, sobretudo mulheres, em posições de liderança.

Enquanto 55,5% da população se identifica como preta ou parda, esse grupo, compõem menos de 6% dos conselhos das empresas e menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria.

O relatório afirma ainda que muitas organizações divulgam iniciativas de diversidade, mas não apresentam informações transparentes sobre a composição racial de seus quadros de liderança.

Os autores do estudo apontam que o blackwashing “não é um desvio de percurso, mas uma peça de engrenagem que mantém a desigualdade racial funcional à acumulação”.

Para os pesquisadores, enfrentar a prática exige mais que denúncias pontuais ou apelos éticos.

“Requer a construção de respostas capazes de incidir sobre a arquitetura que o torna possível”, afirmam.

Fonte: Agência Brasil

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *