
Diante da importância da temática “Ecologia Integral” e tudo o que ela representa para os dias atuais, a Câmara Municipal de Manaus realizou uma sessão solene sobre a Campanha da Fraternidade 2025, com o objetivo de pontuar as problemáticas e as possíveis soluções para que os vereadores da cidade de Manaus entendam a necessidade de se pensar políticas públicas para garantir a preservação da casa comum e de todas as forma de vida que nela habitam. A solenidade de autoria do vereador Zé Ricardo (PT), aconteceu nessa quinta-feira (27), e contou com representantes da Igreja Católica e organismos parceiros que também trabalham em prol do cuidado com a vida de maneira integral.

Conforme o autor da sessão solene, vereador Zé Ricardo (PT), a intenção foi levar o debate aos representantes do povo, na sede do Poder Legislativo, visando compreender a situação atual e apoiar na criação de políticas públicas que amenizem os impactos. “É muito importante que a Câmara, que representa a população através dos vereadores e vereadoras, possa tomar conhecimento das propostas, dos objetivos, o sentido da campanha da fraternidade desse ano, com essa temática da Ecologia Integral. E, portanto, é um assunto que tem tudo a ver com a nossa realidade, com o presente momento que a população está vivenciando […] Já são muitos anos de campanha da fraternidade e também desta temática, sobre o ambiente, sobre a vida, sobre a Amazônia, sobre os povos indígenas, sobre a água”, destacou Zé Ricardo.
“Então essa preocupação dos povos amazônicos, com as pessoas que vivem aqui, que estão aqui enfrentando também as dificuldades, sofrendo também resultado do modelo econômico e também daquelas ideias de exploração do meio ambiente, de exploração das riquezas naturais, mas nem sempre de uma forma mais sustentável. E muito mais predatória de interesse de lucros, de ter resultados econômicos. Então, a campanha da fraternidade também é oportuna para a gente fazer uma reflexão de que desenvolvimento queremos para a Amazônia e para a nossa região, o estado de Amazônia, o maior estado do Brasil em termos de extensão. E nós estamos vendo aí as mudanças climáticas, as grandes enchentes acima da média, acima do normal, e também as vazantes, a seca da Amazônia”, explicou Zé Ricardo.

Para o arcebispo de Manaus, Cardeal Leonardo Steiner, discutir esse tema na Câmara Municipal de Manaus, possibilita discutir políticas públicas e propor ações concretas que, devagar, vai gerando grandes mudanças e uma verdadeira conversão.
“Todos os anos, a igreja no Brasil propõe uma realidade a ser refletida, uma realidade que pede mudança, que nós teologicamente chamamos de conversão. No caso da Campanha da Fraternidade este ano, que tão bem expressa essa mudança estrutural na expressão integral, ecologia integral, quer dizer, uma compreensão do todo e não de partes. Celebramos os 10 anos da Laudato Si e também os 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, que pode nos ajudar muito numa nova percepção, num novo horizonte, num novo sentido das nossas relações. Feliz o tema escolhido para a campanha da fraternidade, que pede de nós naturalmente uma ‘conversão pessoal’. E para usar a expressão de Papa Francisco, estamos profundamente necessitados de uma ‘conversão ecológica’, que passa por ações muito concretas. Nós, na Arquidiocese de Manaus, temos tentado fazer isso, de maneira simples, pequena. Por exemplo, temos feito encontros de formação com crianças e adolescentes sobre a saúde ecológica, e desejamos dar continuidade com isso e introduzir isso também em outras comunidades. Nós temos procurado apoiar e incentivar cada vez mais a coleta seletiva de lixo”, pontuou o arcebispo de Manaus.
Dom Leonardo destacou a problemática da produção de resíduos, da falta do cuidado com o local onde se vive, e o acúmulo de lixo que gera muita poluição, apontando soluções para buscar reverter o quadro lastimável em que se encontra a cidade de Manaus.
“Um aspecto que considero fundamental para uma cidade que tem 2 milhões e 300 mil habitantes é o lixo. Domingo de manhã, quando se passa por alguns lugares, é uma indecência o que se encontra de lixo na rua. Não existe cuidado mínimo com aquilo que se usa, sejam os copos plásticos, sejam os guardanapos. Está tudo na rua. Quer dizer, não existe uma percepção de cuidado. Seria necessário nós começarmos a debater essa questão na sociedade, não impondo leis, mas despertar as pessoas para uma responsabilidade do cuidado do lugar onde nós moramos”, declarou Cardeal Steiner, propondo a instalação de uma “fábrica de lixo”, onde se faria a separação de todo o lixo para reaproveitá-lo:
“Significa uma coleta seletiva de lixos que é levada para esse ambiente, onde seria separado todo o lixo e para reaproveitá-lo todo o lixo, e todo o lixo pode ser reaproveitado. Na Alemanha, visitei um desses lugares onde todo o lixo é reaproveitado. Numa cidade tão grande quanto a nossa, em vez de amontoarmos o lixo, em vez de termos o chorume que vai devagarinho poluindo todo o subsolo, o lençol freático, temos a necessidade de ter uma, entre aspas, ‘fábrica’. Nós estamos profundamente necessitados, precisamos dar um passo. Nós não podemos continuar com os nossos igarapés tão poluídos. Nós não podemos continuar com tanto lixo e ir criando montanhas. Isso esgotou, esgotou para a nossa cidade a possibilidade de irmos acumulando o lixo”, propôs Dom Leonardo.

“Nós somos a última geração que pode salvar o Planeta!”, esta foi a afirmação que deu início ao pronunciamento dos jovens Yasmin Martins e Levi Nascimento, representantes do Sínodo da Juventude da Arquidiocese de Manaus. Ambos pontuaram a importância da juventude assumir a responsabilidade de cuidar de tudo aquilo que Deus confiou à humanidade, sendo esta a geração que pode fazer a diferença no cuidado com a vida.
“Essa frase não é um exagero, nem um apelo vazio. É um chamado à responsabilidade. O tempo para os discursos vazios acabou, o tempo para a omissão se esgotou. Agora resta-nos a ação. E não se enganem, defender nossa casa comum não é apenas uma questão ambiental, mas um compromisso com Deus e com a humanidade. Fomos chamados a ser guardiões da nação. A ecologia integral, como nos ensina o Papa Francisco, não separa a defesa do meio ambiente, da dignidade humana e da justiça social. […] No livro do Gênesis, Deus confiou ao homem a missão de cultivar e guardar a terra. Não podemos dizer que honramos a Deus enquanto permitimos a destruição do que Ele nos confiou. Nossa fé exige coerência. Não podemos rezar pedindo bênçãos para a nossa cidade. E, ao mesmo tempo, fechar os olhos para a degradação do solo, da água, do ar e da vida. Um país que não protege sua riqueza natural, não garante o seu próprio futuro. A Casa Comum não é apenas um bioma ou um território, é um patrimônio essencial para a soberania, a economia e a nossa identidade. Quando falamos de ecologia integral, falamos também de quem vive e depende dessa terra. Mulheres e homens cujas vozes ecoam em suas famílias, comunidades tradicionais, povos indígenas, ribeirinhos, espaços estudantis, campos de agricultores, trabalhadores. Defender a nossa Casa Comum é um ato de patriotismo, porque sem ela não há nação, não há futuro, não há Brasil”, destacaram os jovens.
Segundo eles, os jovens devem ser protagonistas de seu presente e têm papel fundamental na defesa do bem comum, na cobrança por ações que visam o futuro da humanidade e da casa que abriga essa humanidade.
“O sínodo da juventude da arquidiocese de Manaus nos recorda que os jovens não são apenas o futuro, mas o presente da igreja e da sociedade. Pedimos compromisso, coerência e coragem. Diante disso, podemos perguntar aos nossos deputados, aos nossos vereadores, aos nossos governantes, aos demais presentes. O que estamos fazendo? Quantas leis provamos que verdadeiramente protegem nossa terra? Quantas vezes tivemos a coragem de enfrentar interesses poderosos em defesa. Do bem comum, quantas vezes colocamos nossa consciência acima da nossa conveniência? Desafiamos a cada um aqui presente a sair da inércia, a não se esconder atrás de discursos vazios, a transformar palavras em ações concretas, porque seremos cobrados pela história, pelas próximas gerações e, principalmente, pela juventude. Ainda há tempo, mas não muito, somos a última geração que pode salvar nossa casa comum. Que essa verdade nos mova à ação”, concluiram Yasmin e Levi.

Padre Alcimar Araújo, vice-presidente da Cáritas de Manaus e assessor das Pastorais Sociais da Arquidiocese, em sua fala, afirmou que a Campanha da Fraternidade tem o papel de colocar em pauta assuntos importantes a todos e, quando se trata de ecologia integral, é necessário propor ações concretas para reverter o que foi degradado e ensinar as novas gerações a cuidar do meio ambiente, a cuidar das relações com o outro.
“Uma das questões que estamos propondo uma ação concreta é a limpeza e saneamento dos igarapés de Manaus. É complexo, dificil, mas não impossível. […] A segunda questão é a educação ambiental. Nesse ano de 2025, as escolas devem adotar a ecologia como disciplina da escola. E aqui também um outro papel muito importante dos vereadores, começando nas escolas municipais, na educação das crianças, uma mudança de mentalidade, que é a conversão ecológica, que é mudar essa mentalidade para ter uma relação, uma postura, um trato diferente com o mundo. As crianças são fundamentais para que a gente tenha um futuro garantido, com pessoas muito mais conscientes, na forma de tratar toda a natureza e o meio ambiente. Então, o papel da campanha da fraternidade é colocar isso em pauta, abrir as discussões. Já estamos fazendo parcerias com universidades, com entidades, com vários grupos que já trabalham com isso, para a gente começar a engendrar propostas concretas para que a gente possa mudar esse quadro aqui no Amazonas”, destacou padre Alcimar.

Para a representante da articulação da Campanha da Fraternidade na Arquidiocese de Manaus, Patrícia Cabral, enfatizou a importância da fiscalização para que as leis publicadas sejam cumpridas e alertou para as consequências que podem ser desastrosas, do ponto de vista ambiental, que influenciará na qualidade de vida de todos os seres, a humanidade inteira será afetada a degradação.
“E quando a gente fala da vida, não é a vida somente do outro, mas é a vida de todos nós. Quando se fala de ecologia integral, não é somente no contexto de olhar a situação da água, a situação dos ribeirinhos ou a situação dos povos indígenas, mas é a nossa vida. Todos nós sofremos com o descaso. […] A gente precisa pensar com urgência e de fato quanto a aplicação de políticas públicas, mas que ela seja concreta. Não adianta ficar numa casa como essa, fazendo propostas e que essas propostas não saiam do papel. Precisamos olhar de verdade a universalidade das pessoas. E tudo está interligado. Se a gente não conseguir olhar a nossa realidade, não só nós amazonenses que iremos sofrer, mas toda a humanidade perde com esse descaso que acontece em todo o cenário da sociedade”, alertou Patrícia.











