Mulher de Nelson Xavier, Via Negromonte afirma ter vivido um momento sobrenatural na noite desta quarta-feira, após a morte do artista, aos 75 anos, em decorrência de complicações pulmonares derivadas de um câncer.
— Fiz uma oração, acendi uma vela e falei: “Se você já se libertou e está mesmo no paraíso, mande um sinal”. De repente, a vela explodiu. E aí eu comecei a dizer: “Amor, lembre que eu sou medrosa! Não passe disso” — contou a atriz, cantora e bailarina de 58 anos.

O corpo de Nelson Xavier será cremado na tarde desta quinta-feira, na Capela 1 do Cemitério do Caju, na Zona Portuária do Rio, em velório aberto. Tranquila, a família ressalta a força com que o ator e diretor encarou a grave doença durante 14 anos.
— Nos últimos anos, a coisa toda piorou, pois alcançou a medula e o pulmão. Nelson foi um guerreiro, porque ele nunca quis que alguém percebesse a doença. Ele viveu uma vida frutífera, sendo muito auspicioso e dedicado. Mas por dentro estava bastante debilitado faz tempo — explica a mulher, casada há 28 anos com o artista: — As últimas semanas foram atos heróicos. Mas chegou a um ponto em que não havia como prosseguir, pois nada mais funcionava e o corpo dele não aceitava mais.

Via Negromonte acrescenta que o marido teve visões sobre o próprio destino. Há cinco meses, ele havia decidido se internar numa clínica de Medicina Integrativa em Uberlândia (MG), indicada por um colega da meditação transcendental — prática adotada desde que estrelou o filme “Chico Xavier”, em 2010. Quando desembarcou na cidade mineira vizinha à Uberaba, onde gravou sequências sob o papel do famoso médium brasileiro, o ator frisou para a mulher: “Nossa, eu cheguei ao paraíso do céu azul de Uberlândia”. Envolvido com o espiritismo, ele solicitou à Via que fosse enterrado com um terno que ganhara do irmão de Chico Xavier. Por um desencontro, o pedido não pôde ser concluído.
Reveja momentos da carreira do ator Nelson Xavier, morto aos 75 anos
— A nossa mudança chegou em Uberlândia enquanto voltávamos para o enterro aqui no Rio. Infelizmente, ele não será cremado com o terno do Chico. Acho que era para que eu guardasse a lembrança comigo — afirma a esposa do ator: — Nelson teve uma grande premonição. Esse tratamento em Uberlândia realmente deu uma revigorada, para que ele pudesse ter uma despedida com mais suavidade. Ele não perdeu a consciência de si mesmo até o último minuto em vida, e teve uma despedida à altura da dignidade dele.

“Nelson se cansou”, diz filha
Filha de Nelson, Tereza Xavier, de 38 anos, diz que o pai estava muito fraco, além de triste com a própria condição do corpo. Para ela, o artista escolheu o momento certo de partir:
— Acho que ele se cansou. Meu pai fez tudo do jeitinho que ele gostava: partiu sozinho, quietinho, sem ninguém ao lado, durante a madrugada. Claro que ele estava muito fragilizado e chateado de se ver nessa situação… Ele nem precisava falar nada. A gente sentia, porque o conhecia bem. Mas quando penso nele, imagino a essência de Nelson Xavier, e não nisso tudo o que passou. Meu pai sempre teve autonomia para tudo, e começar a perder isso foi difícil. Independentemente de como estava, ele se esforçava para executar tudo o que quisesse.

Filho mais novo de Nelson, Pedro Henrique Cabizuca, de 29 anos, ressalta que seguiu a carreira artística por influência do pai.
— Ele era muito inteligente, conversava sobre tudo e tinha um discurso muito detalhista, explicando o porquê das coisas. Agora, fica a saudade da pessoa que meu pai foi. Era um poço de conhecimento e de sabedoria. Naturalmente, acabei querendo seguir os passos dele. Particularmente, gostei muito do personagem que ele fez no filme “Comeback”, que ainda vai estrear. Ele está espetacular — afirma o ator.
Artistas lamentam perda de amigo
Personalidades compareceram ao velório de Nelson Xavier. Emocionado, Othon Bastos prestou depoimento de homenagem ao colega. Os dois se conheceram durante a década de 1960, no Teatro de Arena, em São Paulo, e trabalharam juntos no filme “Os deuses e os mortos” (1970), do diretor Ruy Guerra.
— Nelson conseguiu descobrir o caminho dele, e isso é lindo. Não é um adeus. É um “até já”. Afinal, daqui a pouco também estou lá. O amigo pode ir embora ao sair, mas a amizade fica no coração — discursou.

Stepan Nercessian, que contracenou com Nelson no emblemático “Rainha diaba”, de 1974, também foi ao local:
— Nelson sempre foi mais do que um colega de profissão. É um mestre e um amigo grande. Ele era um camarada que vem de uma geração de companheiros que se transformavam em verdadeiras famílias. Vai deixar muita saudade. Fora que ele era uma referência do que é ser um grande ator. Ele era cuidadosíssimo ao fazer seus espetáculos. Cada trabalho dele era uma joalheria. Nunca vi o Nelson fazr nada que não fosse para valer em arte. E na vida também.
