Leyla Yurtsever, advogada, articulista e professora
A escrita sincera de Ítalo Calvino nos brinda com um personagem incomum. Trata-se de Agilulfo Emo Bertrandino dos Guildiverni e dos Altri de Corbentraz e Sura, Cavaleiro de Selimpia Citeriore e fez, nome que, por si só, se mostra um exagero. Contudo, este cavalheiro traz em si o mistério da não existência. Agilulfo era um Cavaleiro Inexistente.
A cor alva de sua armadura o destacava em meio à sujidade dos demais. Era um estandarte vivo, um cartão de visita andante e uma embalagem de valores e atributos individuais. Seus companheiros viciosos (para ele) estavam entregues a paixões anti-naturais, como a vaidade, ambição, egoísmo, luxúria e outros amores. Sem qualquer emoção ou sentimento, Agilulfo não mantinha qualquer relacionamento, antes cumpria cegamente todas as regras e normas, até às últimas e ridículas consequências.
Como um espelho, este cavalheiro em muito retrata uma característica da atual sociedade líquida. O mais nobre dos sentimentos e a mais frágil das experiências, que é o amor, foi rebaixado à liquidez das aparências.
Se possível fosse (e aqui nós podemos), um diálogo entre dois gênios mostraria o tamanho desse engano. Freud e Bauman são unânimes em dizer que o amor elevado é pouco conhecido. O que se experimenta na atual sociedade é um rascunho mal feito, um sub-produto desse sentimento. Como uma cópia pirateada, sua aura logo se desfaz, precisando ser renovada e deixando a impressão de se viver o amor repetidas vezes. É um engano viciante. Se assemelha a um dependente que necessita renovar o êxtase infinitas vezes, para eliminar a apatia da solidão e aumentar a distância da dor.
Como armaduras da sociedade líquida, aplicativos e redes sociais intermediam e comandam as relações interpessoais, eliminando qualquer esforço na construção de relacionamentos. A bem da verdade, relacionamento é termo inexistente nesta sociedade, à semelhança de nosso cavalheiro. Por que, assim como este, muitos também se encontram vazios de qualquer sentimento, afeto ou mesmo disposição para relacionamentos, ainda que ostente nomes pomposos ou comuns, insígnias reais ou contas no Instagram com milhares de seguidores.
Em tempos de amor líquido, faltam abraços e sobram distâncias. O cuidado generoso das carícias verdadeiras é substituído pelo cinismo imediato. O ombro que ampara se ausenta, tomando seu lugar os joelhos que se deitam sobre todos os excessos. Essas fissuras apenas revelam que, quando as fraquezas se acusam e as angustias se juntam, o amor pode tornar-se uma meta quase impossível de se alcançar.
Amor, como disse Clarice Lispector, é coisa pra gente distraída. Ou seja, não exige um planejamento anterior, não precisa de planilhas de Excel ou fórmulas estatísticas. Sua ocorrência é desapegada de outros interesses.
Mas, assim como os investimentos na Bolsa de Valores, relacionamentos estão sujeitos a riscos, momentos de alta e baixa. Aqueles que decidem se entregar aos riscos do amor, logo percebem que este é uma dádiva cercada de tensões. Estar conectado parece ser menos ariscado para administrar os recursos do desejo, ainda que a solidão seja sua única companhia. Como um Jedi empoderado pelo click sonoro do mouse, muitos relacionamentos sucumbem. É a lógica do porco espinho: melhor morrer de frio que aproximar-se de outro.
A fala comum é que estamos vivendo um momento de relacionamentos rasos e efêmeros. A falta de tempo para dedicar-se a outro é a resposta usual. Contudo, a mesma falta de atenção negada é também procurada, mas encontrada de forma escassa pelas mesmas alegações. É um ciclo vicioso de um mercado onde existem poucos ofertantes e muitos demandantes. O impulso cristão de ‘amar o próximo como a si mesmo’ hoje vem acompanhado da pergunta sobre qual a vantagem oferecida para tal esforço.
Se as muitas intervenções conseguiram lançar uma densa cortina de fumaça no amor, tornando-o líquido, não admira que Agliulfo, também se tornou inexistente devido a várias transformações, frutos de interferências externas excessivas que acabaram aterrando a interioridade do indivíduo.
Para este último, os objetos, a armadura, os valores e os ideais, passaram por um processo de personificação, enquanto o sujeito Agliulfo foi sendo gradativamente coisificado.
Possivelmente, alguém se pergunte qual a relação deste tema com a área jurídica. A resposta óbvia é: justiça, direitos, deveres, felicidade e dignidade, que são metas comuns da vida, só fazem sentido quando se considera que somos pessoas integrais e não objetos desprovidos de emoções.
Leyla Yurtsever é advogada, articulista e professora. Sócia e fundadora do escritório jurídico Leyla Yurtsever Advogados Associados. Graduada em Direito. Especialista em Direito do Trabalho e Previdenciário pelo Ciesa; e em Direito Penal e Processo Penal pela UFAM. É Mestre em Gestão e Auditoria Ambiental pela Universidad de Leon (2006) – Espanha. Doutoranda em Direito pela Universidade Católica de Santa – Fé – UCSF. Foi coordenadora do Curso de Especialização em Direito Eleitoral da Universidade do Estado do Amazonas e do Núcleo de Prática Jurídica, neste último atua ainda como professora. Palestrante convida da Escola Judiciária Eleitoral – EJE/ AM. Coordenou e lecionou no Escritório Jurídico da UNIP e no Núcleo de Advocacia Voluntária – NAV – da Uniniltonlins. Professora da Universidade Federal do Amazonas e subcoordenadora do Núcleo de Prática Jurídica da UFAM/Direito. Foi professora do curso de Segurança Pública da UEA e a primeira mulher a ser professora de uma disciplina militar denominada “Fundamentos Políticos Profissionais” no Comando-geral da Polícia Militar. Atualmente é Assessora Jurídica Institucional da Polícia Militar do Amazonas.
